Por que (re)humanizar a Medicina

Recentemente uma matéria do Globo Universidade chamou a atenção pelo fato de estar alinhada com um debate que há muitos anos vem ocorrendo nas instituições de ensino de medicina, não apenas no Brasil, mas no mundo. Essa matéria trata sobre a medicina humanizada e será o tema da publicação de hoje. Historicamente, temos que o papel do médico estava contextualizado numa dinâmica social que lhe permitia exercer mais do que a medicina. Não era incomum que seus pacientes o consultassem em busca de conselhos sobre casamento, relacionamentos, confissões, dentre outros. Como algumas cidades permitiam que o médico conhecesse a maioria dos habitantes, o médico podia inclusive ser um “casamenteiro” e auxiliar um jovem rapaz na conquista de uma moça ou aconselhá-lo para que não se frustrasse, dado o desinteresse da dama. Porém, ao longo dos anos muitas coisas mudaram. Aquele que um dia fora tão próximo de seus pacientes se distanciou, e hoje temos algumas tentativas de resgate da figura de um médico e uma medicina ditos humanizados.

Um dos grandes elementos transformadores da mudança e afastamento dos médicos foi  a crescente evolução tecnológica. A prática médica depende do conhecimento que o médico possui sobre seu paciente, seus conhecimentos sobre os fatores de risco para o aparecimento de algumas doenças, seus sinais e sintomas e as ferramentas de diagnóstico. Uma das principais ferramentas utilizada pelos médicos numa época em que os exames complementares de alta tecnologia não existiam era o exame físico completo e bem realizado associado a uma entrevista (anamnese) bem conduzida. Com o aparecimento de exames laboratoriais e de imagem e o aumento das pesquisas e produção de conhecimentos, muitos médicos utilizaram os exames complementares como forma de “poupar tempo” e tentar maior acurácia no diagnóstico. Evolução que poderia trazer grandes benefícios, acabou afastando médicos e pacientes.

Outro dado importante para descrever o afastamento desses dois elementos foi a transformação de uma relação baseada no conhecimento atrelado à proximidade em uma relação mediada pelo “código do consumidor”. Além disso, é importante relatar que o aumento do número de profissionais médicos em oferta possibilitou que pacientes insatisfeitos com o atendimento de um dos médicos possam facilmente procurar outro rapidamente, que lhe atenda da forma que julgar mais adequado (caso o paciente ache mais adequado um médico que lhe prescreva muitos exames e medicamentos, mesmo sem necessidade, o paciente sente-se mais confortável e acredita que foi bem atendido). Essas mudanças contribuíram para a desvalorização do trabalho médico, que em alguns casos é traduzida pela baixa remuneração que recebem por consulta. Na necessidade de aumentar o número de consultas diárias para que pudessem ter uma remuneração digna, médicos diminuíram seus tempos de consulta, dependendo ainda mais de exames complementares para chegarem a um diagnóstico.

Diversas iniciativas hoje procuram resgatar uma relação médico-paciente que seja mais próxima e construindo uma realidade de cumplicidade. A notícia relata uma dessas iniciativas de humanização da medicina. Médicos e pacientes poderiam se envolver mais em projetos em prol da comunidade e juntos contribuírem para a formação de uma identidade com o local onde atuam/moram. Ambos são participantes nesse processo e podem encorajar outros a seguirem esse exemplo.

Para ler mais sobre a notícia, acesse:
http://redeglobo.globo.com/globouniversidade/noticia/2012/12/modernidade-nao-significa-frieza-e-o-que-prega-medicina-humanizada.html