paciente

O conflito de interesse e a importância de eleger um médico para chamar de “seu”

Nesse post não pretendo entrar numa discussão teórica do comportamento humano e muito menos decidir quem é bom ou mau em qualquer disputa. O texto aqui reflete apenas a minha experiência pessoal e profissional no sentido de orientar as pessoas em como cuidar melhor de sua saúde.

Quando você vai a uma consulta qualquer e usa o cartão do seu plano de saúde para ser atendido, talvez não perceba, mas está participando de uma disputa de “três lados”.

Uma disputa de “dois lados” é fácil de entender. No futebol, por exemplo, ganha quem marcar mais gols no adversário. No caso da saúde, é complicado julgar quem ganha ou perde. Mas não é tão difícil dizer qual o interesse de cada parte.

Os “três lados” e seus interesses são:

1 – O plano de saúde: ele é recompensado quando você gasta menos, ou seja, quando vai menos ao médico e faz menos os exames.

2 – O prestador (médico, clínica, hospital ou laboratório): ele é recompensado quando você gasta mais. Quando vai a mais consultas, faz mais exames ou procedimentos mais caros.

3 – O paciente : ele quer ter mais saúde, e o “termômetro” que ele usa pra medir isso é se ele se sente mais seguro com a conduta que recebe e o quanto ele percebe o sucesso do tratamento.

Veja bem: um paciente pode estar achando que o tratamento foi ruim, mesmo que o resultado seja satisfatório. E vice-versa. O “termômetro” não obedece a um conhecimento específico, e sim a uma percepção!


Dessa forma, fica fácil dizer o que cada lado quer nessa disputa:

1 – O plano de saúdevai querer gastar menos com você. Ele pode criar programas de promoção e prevenção, tentar economizar os gastos quando você tem mais saúde. Mas o exagero dessa vontade de gastar menos pode levar o plano a dificultar o acesso a determinados serviços. Por que “dificultar”? Porque se ele proibisse, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) iria multá-lo. Então ele só “dificulta”. Ou você achava que a burocracia existia sem um motivo?


2 – O prestadorvai querer que você faça os melhores exames e procedimentos, tudo do bom e do melhor. Quando é para você ter saúde isso é ótimo. Mas o exagero dessa vontade de fazer exames e procedimentos pode ser ruim pra você. Por exemplo, a quantidade de radiação no exame de tomografia computadorizada é ruim para a saúde, ela aumenta o risco de câncer. Repetir exames e realizar procedimentos cirúrgicos agressivos normalmente são alternativas somente após algumas outras abordagens não darem certo.



O paciente (todos os seres humanos do planeta, pelo menos algum dia) é que fica no meio do tiroteio. Como saber se você não está sendo explorado como uma mina de ouro ambulante? Ou talvez se seu tratamento está sendo adiado e sua saúde está piorando? Não é possível ter certeza.

Em última análise, é importante que você se sinta seguro. E a única coisa que pode sustentar isso é o esclarecimento.

Para isso, o ideal é que você encontre um médico “para chamar de seu”. Alguém em quem você confie. Ele deve acompanhar sua saúde no longo prazo. Você pode até se consultar com muitos outros especialistas, mas é de suma importância que alguém, em algum lugar, concentre as informações. Imagino que qualquer um se sinta mais seguro quando o médico explica o que está havendo e o que ele escolheu como conduta e por quê, além de envolver o paciente no processo de decisão. 

Como exemplo da importância desse tipo de trabalho temos o sistema de saúde francês, que obriga cada cidadão a ter o seu “médicin traitant”, o que não é nada mais do que o médico que concentra suas informações e se responsabiliza pelo paciente. De certa forma, a saúde pública no Brasil se esforça para funcionar dessa maneira. Entretanto, os planos de saúde têm poucas iniciativas nesse sentido.

O que não impede que você procure um “médico para chamar de seu” que atenda pelo seu plano e te deixe fora do jogo comercial dos hospitais e planos de saúde.

Nosso outro blog também tem dicas sobre como escolher seu médico.
Espero que minhas opiniões sirvam de ajuda!
Boa sorte a todos, abraços,

Ricardo Lima