Crack – uma questão de saúde pública

A cena tem se repetido diariamente no noticiário: homens e mulheres, vestidos em farrapos, correndo descoordenadamente pelo meio da Avenida Brasil, em plena cidade do Rio de Janeiro. Poderia ser uma cena de filme de terror, digno daqueles sobre apocalipse zumbi, mas não é. A cena é real, é trágica, é crítica: é o crack. Nas próximas quintas-feiras, faremos uma série de publicações sobre o crack em seus diversos aspectos: a questão sanitária, a questão de segurança pública, e a questão social. 

Hoje, começamos com a relação entre o crack e o seu usuário – como seu organismo e sua mente são afetados. Queremos deixar claro que, antes de tudo, o vício pelo crack é uma doença. O usuário de crack necessita de tratamento e apoio. Criminalizá-lo é uma atitude simples demais para um problema tão complexo.

Para começarmos nossa conversa, precisamos saber: o que é o crack?

O crack é um derivado da pasta base da cocaína, que foi descoberto na década de 1980 nos EUA. Os traficantes descobriram que, ao invés de usar o éter dietílico, que transforma a pasta da cocaína em pó, poderia ser usado o bicarbonato de sódio, uma alternativa mais barata. O resultado dessa mistura foi a cocaína sólida – a pedra de crack – uma droga muito mais viciante, prazerosa, destrutiva e letal

O crack é utilizado da seguinte forma: coloca-se a pedra em um cachimbo, o fogo é aceso, e a fumaça é inalada, chegando aos pulmões, e deles, rapidamente para a corrente sanguínea e o cérebro. A sensação de prazer proporcionada é muito rápida e intensa, diferente da cocaína, que é um pouco menos rápida. O cachimbo para fumar a droga pode ser qualquer coisa: uma latinha de alumínio, um copo plástico, um cachimbo de madeira… E aí o problema se amplia, por que o usuário, além de inalar o crack, que por si só contém cocaína e amônia, também inala alumínio ou derivados do plástico. São muito mais produtos tóxicos do que apenas a droga em si.

O uso do crack provoca os seguintes efeitos imediatos: aceleração da frequência cardíaca, dilatação das pupilas, contração dos vasos sanguíneos, tremores, suor excessivo, ansiedade, nervosismo, delírio, prazer e vontade de consumir mais droga. Em conjunto, essas alterações no organismo levam a infarto do coração e de outros órgãos, hemorragia intracraniana, propensão a acidentes e atitudes violentas, vício, e o chamado “pulmão do crack”, uma condição em que a contração dos vasos dos pulmões é tão grave que eles param de receber sangue, e os pulmões morrem por falta de oxigênio. É importante frisar: tudo isso acontece com uma única inalação da droga.

A longo prazo, além do risco aumentado de que ocorram essas complicações do uso único, uma série de transformações ocorrem no organismo. O usuário de crack emagrece, perde massa cerebral, tem alterações de personalidade, e se expõe a riscos imensos em troca da droga. Há pessoas que se prostituem em troca de pedras de crack, e acabam contraindo HIV e hepatite B. Outros roubam e cometem outros atos violentos, sendo alta a mortalidade dos usuários por assassinato, e mutilações devido a violência. O vício é tão intenso e incapacitante que a pessoa perde o convívio social, familiar, afetivo e trabalhista. Sua vida é arruinada, e a pessoa passa a viver à margem da sociedade, nas “cracolândias”, onde têm fácil acesso à droga e podem consumi-la impunemente.

O tratamento para esse vício não é simples, como muitos imaginam, e envolve mais do que a simples remoção dos usuários das ruas e a internação obrigatória. A abstinência do crack leva o indivíduo a ter tremores, psicose, depressão, ansiedade, ideações suicidas, sono excessivo, desejo intenso de voltar a usar a droga, e incapacidade de sentir prazer com qualquer outra coisa que não seja cocaína. Ou seja: a vida dessa pessoa está destruída. Ela prefere morrer a viver sem o crack. É a morte em vida.

O tratamento do vício ao crack é feito através dos Centros de Atenção Psico-Social (CAPS). Neles, os pacientes recebem apoio de psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais e outros profissionais. É feito todo um trabalho de reestruturação da vida do usuário de crack, e de alívio dos sintomas de abstinência, até que o paciente consiga lidar com o vício. Uma coisa importante de ser citada é que a maior parte dos usuários de crack tem família, e se desvinculou dela devido ao uso da droga. A família geralmente é desestruturada, e precisa de auxílio tanto quanto o usuário. O problema de saúde é coletivo.



Quinta-feira que vem, será a vez da perspectiva da segurança pública sobre o crack. Para fechar esse texto, queremos deixar aqui o recado: leiam mais sobre o assunto. Procurem fontes confiáveis. Evitem informações tendenciosas. Opiniões radicais nunca trazem a solução. A questão do crack é um problema de todos.

Referências:

Associação Brasileira de Psiquiatria – Abuso e dependência: crack

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