A consulta médica

Uma prática fundamental no exercício da medicina é a consulta médica. Ao longo dos anos, ela foi sendo transformada à medida que a relação entre o médico, o paciente e a sociedade foi sendo modificada pela crescente mercantilização da saúde e incorporação de tecnologias. Diante disso, Conselhos e Faculdades de Medicina e órgãos governamentais têm se dedicado em discutir e elaborar estratégias de resgate da boa prática de consulta, em que médico e paciente possam, ao final, considerar satisfatória e eficaz.

Atualmente, muitos pacientes reclamam que seus médicos nem olham para seus rostos, prescrevem medicamentos que muitas vezes não funcionam e sentem frieza da parte do médico na hora da consulta. Alguns médicos diriam que o número de pacientes que precisam atender exige deles uma consulta mais focada e que por isso não podem ficar “batendo papo” com os pacientes. Outros diriam que, dependendo de aonde acontece a consulta, não dá para fazer uma anamnese com história clinica detalhada, sendo o caso do médico da emergência.

A realidade é que um médico que não conhece bem a história do seu paciente, perde a possibilidade de ter a visão geral e incluir dados sociais e culturais determinantes pra condição do paciente. Além disso, impossibilita uma análise de riscos para prevenção de agravos que há muitos anos já sabemos prevenir. 

Devemos ir além da queixa do paciente. Óbvio que a doença no momento da consulta deve ser prioridade, a qual devemos dar total atenção e resolutividade. Assim, uma entrevista direcionada ao problema deve ser utilizada, vislumbrando-se que, eventualmente, iremos fazer a coleta da história completa do paciente.

Após um determinado número de consultas e com o paciente recuperado, se o médico em questão não tiver interesse em conhecer seu paciente, sua realidade social e contextualização nos possíveis problemas relacionados ao seu estilo de vida, status social e contexto familiar, estará alimentando uma prática de consulta que pode ser insatisfatória e incompatível com o cuidado do paciente. Nessa hora, temos que pensar no quadro geral e longo prazo.

O uso de novas tecnologias na saúde tem impacto significativo nos desfechos e descoberta de doenças. Porém, a tecnologia foi um fator importante na transformação da relação do médico com o seu paciente. Os exames complementares acabaram se tornando a base da medicina atual e o médico é o profissional a ser consultado para solicitá-los.

O médico, por sua vez, se utiliza excessivamente desses exames, ao invés de valorizar um bom exame físico e uma boa entrevista com o paciente. Com isso, o custo da medicina aumenta substancialmente e a consulta médica desvaloriza-se, sendo apenas um encontro para fornecimento de uma solicitação de exame. Ambos, médico e paciente, saem enfraquecidos e potencialmente frustrados.

Portanto, na próxima consulta, exija do seu médico mais do que apenas uma entrevista simples, frieza e ausência do exame médico. Consulta na qual o médico não coloca a mão/estetoscópio no paciente é consulta que precisa ser refeita. O papel do paciente nessa hora é o de questionar e exigir ser examinado. 

Uma última colocação que gostaríamos de realizar é a seguinte: Valorize a si mesmo e ao seu médico. Reflita sobre a importância do trabalho do médico. Precisamos cuidar melhor dos médicos e os médicos precisam cuidar melhor dos seus pacientes.

Você esteve numa consulta médica recentemente? O que achou do atendimento? Comente no site do (im)Paciente: http://www.impaciente.org/